Heitor Gouvêa
Poems
O canalha que sou
26/12/2025
Penso na mulher que busco
como quem tateia o escuro
não à procura da luz,
mas do avesso da sombra.
Descubro que sei nomear melhor
os abismos que rejeito
do que os jardins que desejo.
É mais fácil listar ruínas
do que sustentar promessas.
E, no espelho que evito,
reconheço os mesmos traços:
a dureza que condeno,
o descuido que me fere,
a ausência que critico
habitanto meu próprio peito.
Há algo de vil nessa conta silenciosa,
nesse tribunal íntimo
onde absolvo meus defeitos
e sentencio os do outro.
Não me atrevo a medir
o peso exato dessa canalhice
talvez porque medi-la
exigisse coragem,
e não poesia.
por um momento
20/12/2025
Existem momentos em que sinto que a peguei pelas mãos. Olhei nos olhos e depois a tirei para dançar. Dançamos como fossemos um só. E de alguma forma, dancei bem ao lado dela.
Não importava o que acontecia no mundo lá fora. Naqueles momentos era como se tudo estivesse parado.
Todas as vezes, me pergunto, se haverá uma próxima.
A intuição e eu. Somente nós dois.
Para você
20/11/2025
Penso na caixa que um dia deixarei pra você.
Uma caixa de metal japonês,
daquelas feitas para durar mais do que a mão que as segura.
Fria por fora, simples, sólida —
como tudo o que eu gostaria de ter sido.
Dentro dela, não imagino tesouros.
Imagino pequenos rastros meus:
um objeto gasto pelo uso,
uma fotografia que resistiu ao tempo,
um bilhete que escrevi tarde da noite,
e talvez um pedaço de alguma esperança
que eu nunca soube onde guardar.
Quero que, ao abrir, você sinta o peso leve
de quem tenta deixar amor em forma de coisa.
Que entenda que cada objeto ali
é só uma forma torta
de dizer que estive aqui,
e que meu silêncio também cuidava de você.
E que a caixa, mais do que tudo,
seja um lugar onde o meu tempo
encosta no seu.
Filhos
19/11/2025
Hoje meu apartamento é simples e calmo:
móveis modernos, cores escuras, tudo no lugar.
A luz entra pelas janelas enormes
e a vista lá fora parece parte da decoração.
Às vezes penso no que pode acontecer
num futuro que ainda não existe.
Talvez um dia eu tenha filhos correndo pela sala,
e telas de proteção nas janelas —
talvez a paisagem pareça um pouco menos livre.
Ou talvez tudo permaneça como é,
com a casa em silêncio moderno
e o horizonte inteiro à mostra.
Mas se um dia cores novas chegarem,
virão nos brinquedos espalhados,
nos desenhos tortos na parede,
na alegria que não combina com o preto.
Porque a beleza muda de lugar
quando a vida muda de direção:
o que hoje vem de fora
pode, quem sabe, nascer dentro.
Sem título
19 de Setembro de 2025:
desde pequeno
na pequena cidade
trago sonhos pequenos
de imensa verdade
enfrento o mundo
por vozes sofridas
pequenas conquistas
cicatrizam feridas
Homens.
xx/xx/xxxx
Li os homens que amaram errado.
Os que chamaram paixão de febre,
e febre de arte.
Li as mulheres deles —
fantasmas que fumavam no escuro,
ecos de risos e culpas.
Entendi tarde:
não era sobre elas,
era sobre o espelho.
Eu também bebi das mesmas fontes,
achei poesia no abandono,
fiz promessas com gosto de café amargo.
E agora,
quando leio o que escreveram,
não admiro — reconheço.
Eles falaram de mim,
antes que eu existisse.
Hoje, não leio — revisito.
Volto aos autores como quem retorna a um bar antigo,
sabendo que o garçom já morreu,
mas o copo ainda guarda o cheiro do uísque.
Falo com eles em silêncio:
entendo o exagero, o medo, o charme da ruína.
O “caféjeste” deles não era soberba —
era solidão mal disfarçada.
E eu, que também fui frase mal pontuada,
agora percebo:
o amor nunca foi tema —
foi método.
Ser intenso foi a forma mais bonita que encontramos
de não desaparecer.
E talvez seja isso o que herdei:
essa vontade de sentir até rasgar,
de errar bonito,
de escrever o que não sei dizer.