Heitor Gouvêa

Research About


Os últimos 20%

Gosto de revisitar publicações antigas de pessoas ou empresas que criaram algo que considero realmente relevante, especialmente textos escritos antes de seus grandes pontos de inflexão, para entender como o pensamento delas estava sendo formado.

Nesta manhã, eu estava lendo alguns posts do blog da Cognitect, a empresa por trás do Clojure e posteriormente adquirida pelo Nubank, quando um título chamou minha atenção: “The last 20%”. O autor reflete sobre como a maior parte do trabalho parece fluir bem nos primeiros 80%, mas é nos últimos 20% que a verdadeira percepção de qualidade é definida. É justamente nesse momento que os detalhes importam mais e os erros se tornam mais caros.

Isso me fez pensar em algo que vejo com frequência em projetos open source e iniciativas pessoais. Essas ideias geralmente começam cheias de energia, muitas vezes como exercícios de aprendizado ou pesquisa. Mas raramente chegam até o fim. Os últimos 20% se tornam o verdadeiro desafio, não porque sejam tecnicamente impossíveis, mas porque são compostos por trabalho tedioso: tratar casos de borda, escrever documentação, eliminar dívida técnica, melhorar mensagens de erro, limpar interfaces e garantir que a coisa se comporte bem fora do caminho feliz.

Esse trabalho nem sempre parece criativo. Nem sempre traz aprendizado imediato. Raramente tem a empolgação do primeiro protótipo, quando tudo é possibilidade e cada novo commit parece progresso visível. Mas é exatamente esse esforço que transforma um projeto paralelo em algo utilizável por outras pessoas.

É isso que separa um repositório parado no GitHub de um software rodando em produção, mesmo que apenas algumas poucas pessoas estejam usando. A diferença não está apenas na complexidade técnica. Está na disposição de terminar as partes entediantes que tornam o trabalho confiável.

Isso também pode fazer uma enorme diferença em entrevistas de emprego. Um projeto finalizado demonstra mais do que habilidade técnica. Ele mostra a capacidade de levar uma ideia até uma entrega real. Mostra que você consegue ir além da parte divertida da invenção e lidar com as responsabilidades que aparecem quando outra pessoa passa a depender do que você construiu. É nesse momento que o valor deixa de ser apenas individual e passa a ser compartilhado.

No fim, os últimos 20% não são apenas sobre acabamento. São sobre responsabilidade, disciplina e compromisso com as pessoas que vão usar o que você construiu. É nesse ponto que um projeto deixa de ser apenas um experimento e começa a se tornar um produto com impacto real.

E, pela perspectiva de produto, a mesma lógica se aplica. Prestar atenção aos últimos 20% muitas vezes é o que diferencia você dos concorrentes ao entregar uma experiência mais fluida e confiável. Em outras palavras, os detalhes finais definem não apenas a percepção de qualidade, mas também o sucesso de longo prazo.